Há uns dias, deparei-me com o comentário de uma rapariga que insinuava que a literatura de ficção não tinha muito a ensinar. Não o disse diretamente, mas publicou a fotografia de um livro que considero integrar-se na categoria "Vida Prática", com uma pequena descrição em que admitia não gostar muito de ler ficção por achar que não aprendia, levando-a a optar por um que fosse mais "útil". Parece-me uma inferência razoável concluir que, para ela, aprender está associado apenas ao conhecimento prático e imediato.
Eu, por outro lado, sou uma grande apreciadora de ficção e acho mesmo que é possível compreender a realidade através dela.
Nem toda a ficção se limita a floreados, embora muitos enredos sejam leves, cómicos e puro entretenimento. A ficção pode transmitir factos dando-lhes profundidade, contexto e emoção. É capaz de nos provocar e inquietar, fazer-nos questionar como agiríamos no lugar das personagens.
Um ensaio pode explicar o trauma e a dor, mas poucos textos capturam tão visceralmente o peso do sofrimento como "A Little Life", de Hanya Yanagihara. A história de Jude não é apenas sobre a brutalidade do passado, mas sobre como os fantasmas da dor se infiltram no presente, mesmo quando tudo à volta parece promissor. Foi um romance que me deixou emocionalmente exausta porque aquela leitura não foi apenas um exercício de empatia; foi um autêntico confronto com os meus próprios limites enquanto espectadora do sofrimento alheio.
Podemos ler sobre os horrores da guerra, mas "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, obriga-nos a vê-los pelos olhos de quem carrega cicatrizes que não se apagam. Acompanhei o velho Tuahir e o menino Muidinga por uma estrada sem fim e senti que a guerra que eles viveram não foi só de pólvora e destruição, mas uma tragédia que os obrigou a exilarem-se dentro do próprio país e dentro de si mesmos. E mesmo assim, no meio da desumanidade, sobreviveu algo muito humano: o desejo de criar laços («Afinal, todos queremos no peito o nó de um outro peito»). Queremos pertença, queremos alguém que carregue connosco a nossa dor, no meio da incerteza, do medo e da solidão.
A censura e a manipulação da informação são realidades documentadas, mas depois de lermos "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, nunca mais pensamos nos livros (ou na falta deles) da mesma forma. Não é apenas uma distopia sobre queimar papel impresso, é um alerta que o autor nos deixa sobre o que acontece quando deixamos de questionar, de pensar criticamente e de nos incomodar com ideias que desafiam as nossas certezas.
E quando a verdade e a mentira se misturam, como em "Atonement", de Ian McEwan, percebemos como um único erro pode alterar para sempre o curso de uma vida. Ou de várias. O livro não só mostra o peso de uma acusação errada, como me obrigou a pensar sobre a impossibilidade de reescrever um erro e sobre como as nossas próprias versões da realidade podem ser traiçoeiras.
Nem só os livros que se propõem, explicitamente, a ensinar-nos algo são capazes de o fazer. A ficção pode não dar dicas úteis nem respostas diretas, mas ajuda-nos a fazer perguntas melhores. Dizer que a ficção não ensina é o mesmo que dizer que só aprendemos com aquilo que podemos aplicar imediatamente. Mas se a utilidade da leitura se medisse apenas pela sua aplicabilidade prática, deixaríamos de ler romances, poesia, teatro,... E talvez deixássemos de nos entender uns aos outros.
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