A partir da perspetiva privilegiada do espaço, onde as fronteiras políticas desaparecem e a Terra se revela como um único organismo vivo, os astronautas observam em tempo real a formação de desastres naturais e a vulnerabilidade do planeta. É através dos seus olhares, simultaneamente maravilhados e inquietos, que a autora nos convida a refletir sobre questões urgentes: qual é o nosso verdadeiro papel na Terra? Que valor têm as nossas ações individuais e coletivas no futuro da Humanidade?
Aquela questão inicial evocou-me de imediato uma passagem do livro O Que é Que Eu Estou Aqui a Fazer?, na qual Ricardo Araújo Pereira, em conversa com João Francisco Gomes, afirma: «A Humanidade foi à Lua; as pessoas atiram papéis no chão.»
Esta dicotomia é inquietante. Como é que, por um lado, alcançamos feitos extraordinários, como explorar o espaço, enquanto, por outro, continuamos a falhar no essencial? Porque estamos a hastear bandeiras na Lua, enquanto há crianças a morrer à fome na Terra? Como podemos celebrar os avanços tecnológicos quando tantas mulheres – igualmente ou mais competentes do que os homens – ainda lutam por reconhecimento e remuneração justa?
Porque gastamos milhares de milhões em missões espaciais, enquanto em muitas partes do mundo as pessoas morrem por falta de cuidados de saúde básicos?
Como é possível termos tecnologia para explorar a superfície de Marte, mas não conseguimos proteger as florestas que garantem a nossa sobrevivência na Terra?
Porque investimos em inteligência artificial, mas não conseguimos acabar com a exploração infantil?
Como podemos mapear galáxias, mas falhamos em acolher com dignidade quem foge de guerras e perseguições?
Volto a citar o Ricardo Araújo Pereira:
«A Humanidade faz coisas nobres. É responsável pelos avanços científicos, vai à Lua e produz vacinas. Produz a cultura: todos os pináculos da música, da literatura e da pintura são conquistas da Humanidade. Mas há um problema: nunca vamos no autocarro com a Humanidade. Vamos sempre com pessoas que cheiram a coisas e se comportam de uma maneira desagradável.»
A pergunta mantém-se: afinal, como estamos a escrever o futuro da Humanidade?
Talvez estejamos a escrever o futuro da humanidade com uma dualidade inevitável. Por um lado, alcançamos feitos notáveis, por outro, continuamos a tropeçar nas nossas limitações mais básicas. Nunca estamos verdadeiramente com a Humanidade, mas com pessoas concretas, imperfeitas, que revelam as falhas que ainda não conseguimos superar.
Escrever o futuro da Humanidade implica mais do que expandir fronteiras físicas ou tecnológicas. Exige que cuidemos do que está próximo, do que é humano no seu estado mais simples e vulnerável.
Orbital, da escritora britânica Samantha Harvey, venceu o Booker Prize em 2024.
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