13/04/2025

O vazio da influência digital

Nunca se produziu tanto conteúdo e nunca se disse tão pouco.

Todos os dias, milhões de vídeos e fotografias são partilhados nas redes sociais por criadores de conteúdos. A minha dúvida está na designação: o que significa ser, afinal, criador de conteúdo? Criar implica produzir algo novo, transformar uma ideia em algo tangível e atribuir-lhe significado, mas o que eu vejo nas redes sociais não é nada disso. Vejo, sistematicamente, réplicas de conteúdos em que o único elemento diferenciador é o nome de quem o partilha.

«Criação de conteúdos» tornou-se um chavão elástico utilizado até à exaustão, que abrange simultaneamente tudo e nada. Basta saber o que o algoritmo quer. Basta ser agradável à vista e caber nos quinze segundos de atenção disponíveis.

Mas o problema não está só em quem publica. Está também em quem consome. O algoritmo não tem vontade própria, apenas reflete a nossa. Se estamos rodeados de futilidade, é porque somos nós que a pedimos. E há que fazer um mea culpa por preferirmos conteúdos rápidos, sem créditos, sem passarem pelo crivo de uma fonte credível, sem contraditório. O algoritmo é apenas o espelho e o reflexo não é bonito de se ver.

A “influência” deixou de ser um exercício de ideias e passou a ser uma montra de produtos. Promovem-se cremes, suplementos, hotéis, roupa, experiências,… tudo envolto num estilo de vida tão higienizado quanto irreal. A maior parte das pessoas não vive assim. Não tem tempo, nem orçamento, nem estrutura familiar ou profissional que lhes permita replicar aquela estética cuidadosamente editada. O comum cidadão limpa a casa, faz contas, anda de transportes, compra cosmética de supermercado. E aspirar a uma vida que não se tem, sem saber o contexto de quem a exibe, pode gerar pode gerar frustração, ansiedade e uma constante sensação de insuficiência que empurra para um estado de esgotamento emocional. É o preço de um estilo de vida que só existe em feeds.

E além do inalcançável ou financeiramente irresponsável, há o conteúdo que nem tenta fingir que oferece valor. Vi recentemente uma história publicitária de uma influenciadora em parceria com as Farmácias Portuguesas. O vídeo era apenas ela a fazer scroll no site da farmácia. O único texto? “Passa pelo site e vai ao separador Blog Saúde de A a Z, onde encontras assuntos interessantes sobre saúde.”

Nada mais. Nenhuma explicação, nenhuma escolha de tema, nenhuma utilidade acrescentada.

Foi paga para isto: para deslizar o dedo e escrever uma frase que não diz absolutamente nada. Como se o simples gesto de aparecer já justificasse a remuneração.

Grande parte dos conteúdos que consumimos hoje são produtos embalados para consumo rápido, com vocabulário previsível, tom sempre entusiasta e uma leveza que esconde o óbvio: a ausência de substância. É um círculo vicioso: conteúdo suave, produto incluído, linguagem emocional, proximidade artificial. Compra-se o creme, o suplemento, a promessa, e o círculo gira novamente.

Criar conteúdo não é isto. Ou, pelo menos, não devia ser. Não devia excluir referências, nem esconder complexidade. E quem influencia, deveria saber mais e interessar-se por algo que não sejam estatísticas de engagement - para variar um bocadinho.

É legítimo querer fazer carreira nas redes. O problema não está na monetização em si, mas na ausência de responsabilidade pública por parte de quem influencia.

Num mundo com milhões de vozes a falar em simultâneo precisamos, mais do que nunca, de quem tenha algo a dizer.

30/03/2025

With this new era of space travel, how are we writing the future of humanity?

Esta pergunta é dirigida a um dos astronautas que Samantha Harvey, em Orbital, decidiu enviar ao espaço numa missão em torno da Terra. Mais do que uma simples expedição, este pequeno livro com parágrafos curtos leva-nos a acompanhar seis cosmonautas numa viagem que é, em igual medida, cósmica e profundamente introspetiva.

A partir da perspetiva privilegiada do espaço, onde as fronteiras políticas desaparecem e a Terra se revela como um único organismo vivo, os astronautas observam em tempo real a formação de desastres naturais e a vulnerabilidade do planeta. É através dos seus olhares, simultaneamente maravilhados e inquietos, que a autora nos convida a refletir sobre questões urgentes: qual é o nosso verdadeiro papel na Terra? Que valor têm as nossas ações individuais e coletivas no futuro da Humanidade?

Aquela questão inicial evocou-me de imediato uma passagem do livro O Que é Que Eu Estou Aqui a Fazer?, na qual Ricardo Araújo Pereira, em conversa com João Francisco Gomes, afirma: «A Humanidade foi à Lua; as pessoas atiram papéis no chão.»

Esta dicotomia é inquietante. Como é que, por um lado, alcançamos feitos extraordinários, como explorar o espaço, enquanto, por outro, continuamos a falhar no essencial? Porque estamos a hastear bandeiras na Lua, enquanto há crianças a morrer à fome na Terra? Como podemos celebrar os avanços tecnológicos quando tantas mulheres – igualmente ou mais competentes do que os homens – ainda lutam por reconhecimento e remuneração justa?

Porque gastamos milhares de milhões em missões espaciais, enquanto em muitas partes do mundo as pessoas morrem por falta de cuidados de saúde básicos?

Como é possível termos tecnologia para explorar a superfície de Marte, mas não conseguimos proteger as florestas que garantem a nossa sobrevivência na Terra?

Porque investimos em inteligência artificial, mas não conseguimos acabar com a exploração infantil?

Como podemos mapear galáxias, mas falhamos em acolher com dignidade quem foge de guerras e perseguições?


Volto a citar o Ricardo Araújo Pereira:

«A Humanidade faz coisas nobres. É responsável pelos avanços científicos, vai à Lua e produz vacinas. Produz a cultura: todos os pináculos da música, da literatura e da pintura são conquistas da Humanidade. Mas há um problema: nunca vamos no autocarro com a Humanidade. Vamos sempre com pessoas que cheiram a coisas e se comportam de uma maneira desagradável.»


A pergunta mantém-se: afinal, como estamos a escrever o futuro da Humanidade?

Talvez estejamos a escrever o futuro da humanidade com uma dualidade inevitável. Por um lado, alcançamos feitos notáveis, por outro, continuamos a tropeçar nas nossas limitações mais básicas. Nunca estamos verdadeiramente com a Humanidade, mas com pessoas concretas, imperfeitas, que revelam as falhas que ainda não conseguimos superar.

Escrever o futuro da Humanidade implica mais do que expandir fronteiras físicas ou tecnológicas. Exige que cuidemos do que está próximo, do que é humano no seu estado mais simples e vulnerável.


Orbital, da escritora britânica Samantha Harvey, venceu o Booker Prize em 2024.

23/03/2025

Por que razão a ficção é uma excelente forma de entender a realidade?

Há uns dias, deparei-me com o comentário de uma rapariga que insinuava que a literatura de ficção não tinha muito a ensinar. Não o disse diretamente, mas publicou a fotografia de um livro que considero integrar-se na categoria "Vida Prática", com uma pequena descrição em que admitia não gostar muito de ler ficção por achar que não aprendia, levando-a a optar por um que fosse mais "útil". Parece-me uma inferência razoável concluir que, para ela, aprender está associado apenas ao conhecimento prático e imediato.

Eu, por outro lado, sou uma grande apreciadora de ficção e acho mesmo que é possível compreender a realidade através dela.

Nem toda a ficção se limita a floreados, embora muitos enredos sejam leves, cómicos e puro entretenimento. A ficção pode transmitir factos dando-lhes profundidade, contexto e emoção. É capaz de nos provocar e inquietar, fazer-nos questionar como agiríamos no lugar das personagens.

Um ensaio pode explicar o trauma e a dor, mas poucos textos capturam tão visceralmente o peso do sofrimento como "A Little Life", de Hanya Yanagihara. A história de Jude não é apenas sobre a brutalidade do passado, mas sobre como os fantasmas da dor se infiltram no presente, mesmo quando tudo à volta parece promissor. Foi um romance que me deixou emocionalmente exausta porque aquela leitura não foi apenas um exercício de empatia; foi um autêntico confronto com os meus próprios limites enquanto espectadora do sofrimento alheio.

Podemos ler sobre os horrores da guerra, mas "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, obriga-nos a vê-los pelos olhos de quem carrega cicatrizes que não se apagam. Acompanhei o velho Tuahir e o menino Muidinga por uma estrada sem fim e senti que a guerra que eles viveram não foi só de pólvora e destruição, mas uma tragédia que os obrigou a exilarem-se dentro do próprio país e dentro de si mesmos. E mesmo assim, no meio da desumanidade, sobreviveu algo muito humano: o desejo de criar laços («Afinal, todos queremos no peito o nó de um outro peito»). Queremos pertença, queremos alguém que carregue connosco a nossa dor, no meio da incerteza, do medo e da solidão.

A censura e a manipulação da informação são realidades documentadas, mas depois de lermos "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, nunca mais pensamos nos livros (ou na falta deles) da mesma forma. Não é apenas uma distopia sobre queimar papel impresso, é um alerta que o autor nos deixa sobre o que acontece quando deixamos de questionar, de pensar criticamente e de nos incomodar com ideias que desafiam as nossas certezas.

E quando a verdade e a mentira se misturam, como em "Atonement", de Ian McEwan, percebemos como um único erro pode alterar para sempre o curso de uma vida. Ou de várias. O livro não só mostra o peso de uma acusação errada, como me obrigou a pensar sobre a impossibilidade de reescrever um erro e sobre como as nossas próprias versões da realidade podem ser traiçoeiras.

Nem só os livros que se propõem, explicitamente, a ensinar-nos algo são capazes de o fazer. A ficção pode não dar dicas úteis nem respostas diretas, mas ajuda-nos a fazer perguntas melhores. Dizer que a ficção não ensina é o mesmo que dizer que só aprendemos com aquilo que podemos aplicar imediatamente. Mas se a utilidade da leitura se medisse apenas pela sua aplicabilidade prática, deixaríamos de ler romances, poesia, teatro,... E talvez deixássemos de nos entender uns aos outros.