Todos os dias, milhões de vídeos e fotografias são partilhados nas redes sociais por criadores de conteúdos. A minha dúvida está na designação: o que significa ser, afinal, criador de conteúdo? Criar implica produzir algo novo, transformar uma ideia em algo tangível e atribuir-lhe significado, mas o que eu vejo nas redes sociais não é nada disso. Vejo, sistematicamente, réplicas de conteúdos em que o único elemento diferenciador é o nome de quem o partilha.
«Criação de conteúdos» tornou-se um chavão elástico utilizado até à exaustão, que abrange simultaneamente tudo e nada. Basta saber o que o algoritmo quer. Basta ser agradável à vista e caber nos quinze segundos de atenção disponíveis.
Mas o problema não está só em quem publica. Está também em quem consome. O algoritmo não tem vontade própria, apenas reflete a nossa. Se estamos rodeados de futilidade, é porque somos nós que a pedimos. E há que fazer um mea culpa por preferirmos conteúdos rápidos, sem créditos, sem passarem pelo crivo de uma fonte credível, sem contraditório. O algoritmo é apenas o espelho e o reflexo não é bonito de se ver.
A “influência” deixou de ser um exercício de ideias e passou a ser uma montra de produtos. Promovem-se cremes, suplementos, hotéis, roupa, experiências,… tudo envolto num estilo de vida tão higienizado quanto irreal. A maior parte das pessoas não vive assim. Não tem tempo, nem orçamento, nem estrutura familiar ou profissional que lhes permita replicar aquela estética cuidadosamente editada. O comum cidadão limpa a casa, faz contas, anda de transportes, compra cosmética de supermercado. E aspirar a uma vida que não se tem, sem saber o contexto de quem a exibe, pode gerar pode gerar frustração, ansiedade e uma constante sensação de insuficiência que empurra para um estado de esgotamento emocional. É o preço de um estilo de vida que só existe em feeds.
E além do inalcançável ou financeiramente irresponsável, há o conteúdo que nem tenta fingir que oferece valor. Vi recentemente uma história publicitária de uma influenciadora em parceria com as Farmácias Portuguesas. O vídeo era apenas ela a fazer scroll no site da farmácia. O único texto? “Passa pelo site e vai ao separador Blog Saúde de A a Z, onde encontras assuntos interessantes sobre saúde.”
Nada mais. Nenhuma explicação, nenhuma escolha de tema, nenhuma utilidade acrescentada.
Foi paga para isto: para deslizar o dedo e escrever uma frase que não diz absolutamente nada. Como se o simples gesto de aparecer já justificasse a remuneração.
Grande parte dos conteúdos que consumimos hoje são produtos embalados para consumo rápido, com vocabulário previsível, tom sempre entusiasta e uma leveza que esconde o óbvio: a ausência de substância. É um círculo vicioso: conteúdo suave, produto incluído, linguagem emocional, proximidade artificial. Compra-se o creme, o suplemento, a promessa, e o círculo gira novamente.
Criar conteúdo não é isto. Ou, pelo menos, não devia ser. Não devia excluir referências, nem esconder complexidade. E quem influencia, deveria saber mais e interessar-se por algo que não sejam estatísticas de engagement - para variar um bocadinho.
É legítimo querer fazer carreira nas redes. O problema não está na monetização em si, mas na ausência de responsabilidade pública por parte de quem influencia.
Num mundo com milhões de vozes a falar em simultâneo precisamos, mais do que nunca, de quem tenha algo a dizer.